O livro “Cidadania e loucura – Políticas de saúde mental no Brasil” é uma coletânea organizada por Silvério Almeida Tundis e Nilson do Rosário Costa, que oferece uma leitura sistemática sobre os fatos históricos que justificam as práticas sociais voltadas para a doença mental.
Busca fazer um mapeamento do estado atual da discussão sobre a questão da saúde mental, as práticas terapêuticas voltadas para o campo da loucura e os processos sociais que determinam a emergência da chamada doença mental, que tem chamado a atenção e despertado a curiosidade dos meios de comunicação em geral. Evoca as representações sociais em torno da loucura em sua natureza histórica e transitória.
Com o declínio dos ofícios artesanais elevou-se a loucura a categoria de problema social. Com o surgimento da manufatura, o trabalho artesanal parecia carente de disciplina, a atitude irracionalista ante o conceito de tempo e da vida resultaram em problema gigantesco para a sociedade que se consolidava, onde se deveria viver para trabalhar, contudo era preciso descartar-se do sentimento de que a liberdade do homem não pode ser subordinada a um processo estritamente vigiado e totalmente racionalizado que até então só era conhecido em presídios e nas casas de correção.
A partir desse quadro podemos dizer que a doença mental poderia ser considerada em incidência sociológica, onde as pessoas com senso comum acreditavam que o doente mental merece desprezo, hostilidade e outras sanções sociais. Acreditava-se que o indivíduo que não participava da vida social (sempre exigindo obediência às modalidades impostas) possuía perturbações mentais. Caberia então à psiquiatria a tarefa de sancionar esses delitos (o de não participar da vida social, sendo então alienados), tidos como doença mental, prática que apresenta a mesma lógica que move os mecanismos de dominação e imposição da lei e da ordem.
Os textos reunidos chamam a atenção suficiente para o fato de que, desde o século XVIII, o controle do louco dispunha de uma rede comum de repressão à desordem, à mendicância, à ociosidade.Escravos, agregados, pretos, mestiços e mulatos forros de todos os matizes e categorias, indivíduos sem trabalho definido, sendo possível recrutar os indigentes e alienados da civilização, os desocupados permanentes, criminosos, desordeiros, brigões e truculentos, todos considerados como doente mental.
No Brasil, o doente mental podia desfrutar de certa tolerância social e de relativa liberdade, a impressão mais marcante da história da doença mental no Brasil é a de que a doença mental parece ter permanecido silenciosa por muito tempo, socialmente ignorada por quase trezentos anos, a loucura acorda arrastada na rede comum da repressão à desordem, à mendicância e à ociosidade.
Com as denúncias crescentes acerca da calamidade encontrada nas instituições que diziam curar o doente mental, surge a discussão de que era preciso que a psiquiatria estudasse de forma cientifica a questão da doença mental e a partir disso rever a situação encontrada, distinguir os doentes mentais daqueles que apenas sofreram a exclusão decorrente do contexto social estabelecido.Após esse período eis que surge outro espaço para a doença mental: os asilos. E neles se constituirá a prática, o saber e o objeto da psiquiatria, a doença mental.
Além do levantamento das naturezas históricas e práticas sociais em torno da loucura, o livro propicia um contato com estudos da epidemiologia social das desordens mentais, na literatura latino-americana. Através de pesquisas realizadas em países latino-americanos e alguns países da América do Sul, analisa a relação do processo de migração com a doença mental.
O autor destaca ainda que apesar dos estudos realizados receberem muitas críticas, é visível que a relação migração - doença mental existe. Assim o autor destaca que o objeto de estudo da doença mental foi deslocado do nível dos indivíduos para pensar o impacto da produção capitalista sobre grupo sociais.
Através dos textos de Edith Seligmann é possível ter acesso á uma minuciosa e detalhada análise das relações entre processo de produção, trabalho e doença mental.
Na sociedade brasileira atual, excludente, rígida e hierárquica, os grupos sociais desprovidos de poder e significância, mas possuidores de identidade permanecem alvos preferenciais dos aparatos de controle, rotulação e reclusão. O destino asilar é predominante decorrente do lugar social do paciente e não conseqüência de uma patologiaPor TCS-TATa

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